A otite média aguda é uma infecção da orelha média, particularmente frequente em crianças. Embora muitos episódios apresentem resolução espontânea, a conduta não deve ser igual para todos os pacientes.
A decisão entre observação clínica e antibioticoterapia depende da certeza diagnóstica, da idade, da lateralidade, da intensidade dos sintomas, da presença de otorreia, das comorbidades e da possibilidade de reavaliação em 48 a 72 horas.
Antes de iniciar o tratamento, é fundamental confirmar o diagnóstico. Eritema isolado da membrana timpânica, especialmente durante febre ou infecção viral das vias aéreas superiores, não é suficiente para caracterizar otite média aguda.
Como confirmar o diagnóstico de otite média aguda?
O diagnóstico é clínico e depende da associação entre sintomas de início agudo, sinais inflamatórios e presença de efusão na orelha média.
A otite média aguda pode ser diagnosticada diante de um dos seguintes achados:
- Abaulamento moderado ou acentuado da membrana timpânica;
- Otorréia de início recente não explicada por otite externa;
- Abaulamento leve da membrana timpânica associado a otalgia iniciada nas últimas 48 horas ou a eritema intenso.
A presença de efusão na orelha média deve ser demonstrada por abaulamento ou redução da mobilidade da membrana timpânica, nível hidroaéreo ou otorreia. A otoscopia pneumática é o método preferencial para avaliar a mobilidade, e a timpanometria pode auxiliar quando houver dúvida.
A ausência de efusão torna improvável o diagnóstico de otite média aguda. Nessa situação, devem ser considerados diagnósticos diferenciais, como otite externa, otite média com efusão, disfunção da tuba auditiva, cerume impactado, trauma, corpo estranho, alterações odontogênicas e dor referida da orofaringe ou da articulação temporomandibular.
Otite média aguda ou otite média com efusão?
Diferenciar essas duas condições é essencial para evitar antibioticoterapia desnecessária.
Na otite média aguda, há inflamação aguda associada à efusão, geralmente com abaulamento da membrana timpânica, otalgia, febre ou otorreia.
Na otite média com efusão, existe líquido na orelha média sem sinais ou sintomas de infecção aguda. A membrana pode estar opaca ou retraída, com redução da mobilidade ou nível hidroaéreo, mas sem abaulamento inflamatório típico. Antibióticos não são indicados rotineiramente para tratar apenas a efusão.
Quais fatores definem a conduta?
Depois da confirmação diagnóstica, devem ser avaliados:
- Idade;
- Otite unilateral ou bilateral;
- Presença de otorreia;
- Intensidade e duração da otalgia;
- Temperatura;
- Estado geral;
- Imunossupressão ou outras condições clínicas relevantes;
- Anomalias craniofaciais;
- Uso recente de antibióticos;
- Histórico de recorrência;
- Possibilidade de acompanhamento em 48 a 72 horas.
O manejo da dor deve ser oferecido a todos os pacientes, independentemente da decisão de observar ou prescrever antibióticos.
Quando iniciar antibioticoterapia?
A antibioticoterapia imediata costuma ser indicada nas seguintes situações:
- Crianças com menos de 6 meses;
- Crianças entre 6 e 23 meses com otite média aguda bilateral, mesmo sem sintomas intensos;
- Presença de otorreia não relacionada à otite externa;
- Otalgia moderada ou intensa;
- Otalgia persistente por pelo menos 48 horas;
- Temperatura igual ou superior a 39 °C;
- Comprometimento importante do estado geral;
- Imunossupressão ou maior risco de complicações;
- Impossibilidade de garantir reavaliação adequada.
A amoxicilina costuma ser a primeira escolha quando não houve uso desse antibiótico nos 30 dias anteriores, não há conjuntivite purulenta associada e não existe antecedente de falha terapêutica com amoxicilina.
A associação amoxicilina-clavulanato pode ser considerada quando houve uso recente de amoxicilina, na presença de conjuntivite purulenta concomitante ou em casos selecionados de falha terapêutica. A escolha também deve considerar alergias, perfil epidemiológico e protocolos institucionais.
Quais sinais sugerem complicações?
É importante diferenciar critérios para uso de antibiótico de sinais de doença complicada. Febre elevada e otalgia intensa indicam maior gravidade clínica, mas não significam, isoladamente, necessidade de internação.
Avaliação urgente ou hospitalar deve ser considerada diante de:
- Instabilidade clínica ou sinais de sepse;
- Comprometimento sistêmico importante;
- Edema, hiperemia ou dor retroauricular;
- Deslocamento anterior do pavilhão auricular;
- Assimetria facial ou paralisia facial periférica;
- Vertigem intensa ou outros sinais de acometimento labiríntico;
- Cefaleia intensa, rigidez de nuca, alteração do nível de consciência ou sinais neurológicos;
- Suspeita de mastoidite ou complicação intracraniana;
- Imunossupressão relevante associada à evolução desfavorável.
Nesses casos, podem ser necessários estabilização clínica, antibioticoterapia parenteral, exames de imagem, internação e avaliação otorrinolaringológica.
É necessário solicitar exames complementares?
Na maioria dos casos não complicados, o diagnóstico é clínico e não são necessários exames laboratoriais ou de imagem.
A tomografia não deve ser solicitada rotineiramente. Ela pode ser indicada quando houver suspeita de mastoidite, abscesso, complicação intracraniana ou outro diagnóstico que não possa ser esclarecido pela avaliação clínica.
A timpanocentese com cultura não é realizada de rotina. Pode ser considerada por especialista em casos graves, complicados ou refratários, especialmente quando a identificação do agente etiológico puder modificar o tratamento.
A presença de tubo de timpanostomia não determina, isoladamente, a necessidade de exames ou encaminhamento urgente. Na otorreia aguda não complicada em crianças com tubo, o tratamento pode ser predominantemente tópico, conforme avaliação clínica e protocolo específico.
Quando reavaliar ou mudar a conduta?
A reavaliação é recomendada quando houver:
- Piora durante o período de observação;
- Ausência de melhora após 48 a 72 horas;
- Persistência de febre ou otalgia importante;
- Surgimento de otorreia;
- Aparecimento de sinais sugestivos de complicação;
- Intolerância ou reação adversa ao antibiótico;
- Dúvida sobre adesão ao tratamento;
- Diagnóstico inicial incerto;
- Episódios recorrentes.
Na ausência de melhora após 48 a 72 horas de antibioticoterapia, é necessário repetir a anamnese e a otoscopia, confirmar o diagnóstico, avaliar adesão e reconsiderar diagnósticos diferenciais ou complicações.
A falha terapêutica não implica obrigatoriamente encaminhamento imediato ao otorrinolaringologista. Em quadros não complicados, pode ser possível ajustar o antibiótico e manter o acompanhamento clínico. A avaliação especializada é mais importante quando há falhas repetidas, complicações, alterações anatômicas, efusão persistente com repercussão auditiva ou recorrência frequente.
Perguntas frequentes sobre a conduta na otite média aguda
O eritema da membrana timpânica confirma o diagnóstico?
Não. Eritema isolado pode ocorrer durante febre, choro ou infecções virais. O diagnóstico exige achados compatíveis com inflamação aguda e efusão da orelha média, especialmente abaulamento e redução da mobilidade da membrana.
A maioria dos pacientes precisa receber antibiótico?
Não. A decisão depende da idade, lateralidade, presença de otorreia, gravidade dos sintomas e possibilidade de acompanhamento. Em pacientes selecionados, é seguro observar inicialmente por 48 a 72 horas.
Todo paciente com febre de 39 °C precisa ser internado?
Não. A febre igual ou superior a 39 °C caracteriza maior gravidade e favorece antibioticoterapia imediata, mas a necessidade de internação depende do estado geral, da estabilidade clínica, das comorbidades e da suspeita de complicações.
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