Uma paciente procura atendimento por prurido vulvar, ardência e corrimento esbranquiçado. É possível iniciar o tratamento apenas pelos sintomas ou é necessário confirmar a etiologia?
Embora frequente, a candidíase vulvovaginal apresenta manifestações semelhantes às de outras vaginites. Por isso, a avaliação deve confirmar o diagnóstico e identificar fatores que caracterizem uma apresentação complicada.
Como confirmar a candidíase vulvovaginal?
As manifestações mais frequentes incluem:
- Prurido vulvar;
- Ardência;
- Disúria externa;
- Dor ou desconforto;
- Eritema e edema vulvar;
- Corrimento geralmente esbranquiçado e sem odor forte.
Nenhum desses achados é específico. O diagnóstico deve combinar sintomas e identificação de leveduras, hifas ou pseudo-hifas na microscopia a fresco com solução salina ou hidróxido de potássio.
O pH vaginal costuma permanecer normal, geralmente abaixo de 4,5. pH elevado sugere outros diagnósticos, como vaginose bacteriana ou tricomoníase.
Quando a microscopia é negativa, mas a suspeita permanece, pode-se solicitar cultura fúngica ou teste molecular. A presença de Candida sem sintomas não indica, isoladamente, necessidade de tratamento.
Como classificar o quadro?
A classificação não é definida apenas pelo aspecto da secreção, pelo pH ou pela microscopia.
A candidíase é considerada não complicada quando é esporádica, apresenta sintomas leves ou moderados, é provavelmente causada por Candida albicans e ocorre em paciente sem imunossupressão relevante.
É considerada complicada quando há:
- Sintomas intensos;
- Recorrência;
- Espécie não-albicans;
- Diabetes mal controlado;
- Imunossupressão;
- Uso de medicamentos imunossupressores;
- Gestação.
O CDC define candidíase vulvovaginal recorrente como três ou mais episódios sintomáticos em menos de um ano.
Há sinais de alerta?
Febre, dor pélvica, sangramento genital inexplicado, corrimento com odor forte, lesões ulceradas ou dor abdominal não são manifestações típicas da candidíase.
Esses achados exigem investigação de outros diagnósticos, como doença inflamatória pélvica, cervicite, vaginose bacteriana, tricomoníase ou doenças dermatológicas vulvares.
É necessário solicitar exames complementares?
Nos quadros típicos e não complicados, microscopia positiva pode ser suficiente.
Cultura ou teste molecular devem ser considerados em:
- Candidíase complicada;
- Episódios recorrentes;
- Microscopia negativa com sintomas persistentes;
- Falha terapêutica;
- Suspeita de espécie não-albicans;
- Possibilidade de resistência aos azólicos.
Nos casos recorrentes, pode ser necessário avaliar glicemia, uso frequente de antibióticos e condições relacionadas à imunidade. Entretanto, muitas pacientes com recorrência não apresentam um fator predisponente identificável.
Como organizar o tratamento?
Casos não complicados geralmente respondem a esquemas curtos com antifúngicos azólicos tópicos ou fluconazol oral, considerando contraindicações e interações.
Apresentações graves, recorrentes ou causadas por espécies não-albicans exigem tratamentos mais prolongados ou esquemas específicos, idealmente orientados pela identificação da espécie.
Na gestação, recomendam-se apenas azólicos tópicos por sete dias. O fluconazol oral deve ser evitado.
Antifúngicos azólicos orais podem apresentar interações medicamentosas e, raramente, alterações de enzimas hepáticas. O risco deve ser considerado principalmente nos tratamentos prolongados.
É necessário tratar as parcerias sexuais?
A candidíase vulvovaginal não costuma ser adquirida por transmissão sexual. Por isso, o tratamento rotineiro das parcerias não é recomendado.
A avaliação pode ser indicada quando a parceria apresenta sintomas genitais compatíveis.
Quando reavaliar ou mudar a conduta?
A reavaliação é necessária quando houver:
- Persistência após o tratamento;
- Retorno dos sintomas em menos de dois meses;
- Três ou mais episódios em um ano;
- Piora ou surgimento de manifestações atípicas;
- Suspeita de espécie não-albicans;
- Falha durante tratamento prolongado.
Nessas situações, é importante confirmar o diagnóstico antes de repetir antifúngicos, pois dermatites, vaginose bacteriana, tricomoníase e outras condições podem ser confundidas com candidíase.
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