Ascite é um achado comum, mas o caminho diagnóstico muda bastante dependendo do mecanismo. O Gradiente Soro-Ascite (GASA), também chamado de SAAG, ajuda a colocar o caso no eixo certo logo no início e evita investigação no piloto automático.
Quando bem coletado e bem interpretado, o GASA tende a ser mais útil do que a proteína total isolada para direcionar o mecanismo da ascite. Ainda assim, ele não resolve o caso sozinho. O restante da análise do líquido e o contexto clínico seguem determinando o plano.
O Afya Whitebook complementa essa leitura com os diferenciais por faixa do GASA e com o pacote de exames do líquido ascítico que vale solicitar conforme a hipótese.
O que o GASA responde (e o que ele não pretende responder)
O GASA responde uma pergunta objetiva: a ascite é compatível com hipertensão portal como mecanismo principal? Na prática, ele entrega um eixo de raciocínio.
Por isso, GASA ≥ 1,1 g/dL sugere hipertensão portal com alta acurácia, enquanto GASA < 1,1 g/dL afasta esse mecanismo como causa principal. O valor é separar caminhos, não fechar diagnóstico.
O GASA não define etiologia por si só. Ele não diferencia, sozinho, cirrose de insuficiência cardíaca, síndrome de Budd-Chiari ou trombose de veia porta, por exemplo. Ele sinaliza que o eixo portal está em jogo.
Também não substitui a análise completa do líquido ascítico. Proteína total e celularidade continuam relevantes para qualificar risco, levantar hipóteses específicas e orientar conduta conforme o cenário.
Como calcular o GASA do jeito certo
A conta é simples e vale fazer do mesmo jeito sempre:
GASA = albumina sérica (g/dL) – albumina do líquido ascítico (g/dL)
O que define se o resultado vai ajudar de verdade é o momento da coleta. Idealmente, a albumina do soro deve ser colhida no mesmo momento clínico da paracentese, porque variações de volume, internação e descompensação podem mudar o valor e distorcer o gradiente.
Antes de interpretar, cheque três pontos rápidos:
- Mesma unidade (g/dL) nos dois exames.
- Albumina sérica do mesmo dia, sempre que possível.
- Registro do contexto: reposição de volume, piora clínica ou infecção recente podem justificar resultados inesperados e pedem leitura mais cuidadosa.
Como interpretar o ponto de corte do GASA na ascite
A leitura do GASA gira em torno de um ponto de corte que separa dois eixos diagnósticos. A pergunta não é “qual é a doença?”, e sim qual mecanismo é mais provável por trás da ascite.
Para reduzir o erro por detalhe, o Afya Whitebook funciona bem como apoio rápido na beira-leito. Ele ajuda a checar fórmula, ponto de corte e as principais causas associadas a cada faixa antes de fechar o plano.
GASA ≥ 1,1 g/dL: sugere hipertensão portal
Um GASA ≥ 1,1 g/dL sugere hipertensão portal com acurácia de 97%. É um resultado forte para direcionar a investigação.
Causas comumente associadas:
- Cirrose hepática (mais comum)
- Insuficiência cardíaca
- Metástases hepáticas massivas
- Síndrome de Budd-Chiari
- Trombose da veia porta
- Fibrose portal idiopática
Como usar na prática: o resultado aponta o eixo portal, mas a etiologia depende do conjunto. Em pacientes com congestão sistêmica, pense em componente cardíaco. Em hepatopatia crônica evidente, a cirrose ganha força.
GASA < 1,1 g/dL: afasta hipertensão portal
Um GASA < 1,1 g/dL afasta hipertensão portal como mecanismo principal. Isso muda o foco e evita investigação no caminho errado.
Causas associadas:
- Carcinomatose peritoneal
- Tuberculose
- Pancreatite
- Síndrome nefrótica
Como usar na prática: aqui o gradiente reposiciona o diferencial para peritônio, infecção crônica, pâncreas e rim, conforme a apresentação clínica e os demais dados do líquido ascítico.
Análise do líquido ascítico além do GASA: o que pedir e quando isso muda conduta
O GASA organiza o mecanismo, mas raramente é o único dado que importa. Para não perder informação relevante, a leitura do gradiente deve andar junto com itens básicos do líquido ascítico e, quando indicado, com exames adicionais orientados pela hipótese.
O Afya Whitebook ajuda a confirmar o que entra no pacote mínimo da paracentese e sugere exames complementares conforme o cenário. Isso reduz pedidos sem direção e evita paracentese incompleta.
Proteína total: quando muda conduta e risco de PBE
A proteína total não substitui o GASA para definir a causa, mas traz um alerta clínico relevante. Pacientes com proteína no líquido ascítico < 1,5 g/dL têm maior risco de peritonite bacteriana espontânea e podem se beneficiar de profilaxia antibiótica, dependendo do contexto e do risco global.
Esse é um resultado que não deve ficar “no rodapé” do laudo. Mesmo com GASA alto e cirrose provável, proteína muito baixa reposiciona risco e pode mudar o plano.
Pacote mínimo e exames adicionais conforme a suspeita clínica
Além da albumina do líquido, é razoável garantir pelo menos:
- Proteínas totais
- Celularidade
A partir daí, exames extras entram quando existe uma pergunta clínica clara. Em situações selecionadas, podem ser úteis LDH, glicose e marcadores tumorais, sempre guiados pela suspeita e não por rotina automática.
O ganho é simples: a primeira amostra já vem preparada para responder o que precisa ser respondido no caso, sem necessidade de repetir paracentese por falta de dados.
Próximos passos com o resultado na mão: como o GASA direciona a investigação
O GASA serve para escolher o eixo. A partir daí, o foco é priorizar perguntas e exames com melhor rendimento para aquele cenário, sem abrir o diferencial de forma indiscriminada.
Quando o eixo é hipertensão portal
Com GASA compatível com hipertensão portal, o próximo passo é definir qual mecanismo portal é mais provável no paciente.
Em muitos casos, cirrose é a explicação mais provável. Ainda assim, vale checar sinais que sugiram componente cardíaco ou causas vasculares hepáticas e portais, principalmente quando o fenótipo não é típico de hepatopatia crônica.
O Afya Whitebook ajuda a revisar rapidamente causas associadas a GASA alto e a organizar o diferencial por cenário. Isso reduz risco de ancoragem em uma única hipótese.
Quando o eixo não é hipertensão portal
Com GASA abaixo do ponto de corte, o foco muda. O raciocínio fica mais eficiente quando segue o contexto clínico.
Perda ponderal, sinais sistêmicos ou imagem sugestiva fazem carcinomatose peritoneal entrar cedo no diferencial. Contexto clínico e epidemiológico compatível sustenta tuberculose como hipótese relevante. Dor abdominal e história típica direcionam para pancreatite. Edema importante e achados renais puxam para síndrome nefrótica.
A ideia não é listar possibilidades. É usar o GASA para escolher a trilha e, a partir dela, pedir o que realmente muda o plano.
Quando o resultado não combina com o quadro
Se o GASA destoar da história clínica, vale revisar premissas antes de forçar uma explicação.
Cheque se albumina sérica e albumina do líquido foram colhidas no mesmo período e em condição clínica comparável. Em internação, variações de volume, reposição e descompensações podem alterar a albumina e distorcer o gradiente.
Também é um cenário em que mecanismos podem coexistir. Nesses casos, a leitura do líquido além do GASA ganha peso e ajuda a sustentar o caminho escolhido.
Pontos de atenção que evitam erros de leitura
Antes de concluir, vale passar por três checagens rápidas que costumam evitar interpretações apressadas e retrabalho na investigação.
1) Não transformar GASA em diagnóstico fechado
GASA alto sugere eixo de hipertensão portal. GASA baixo afasta esse mecanismo como causa principal. A etiologia ainda precisa ser sustentada por clínica, história e exames complementares.
Isso pesa mais em pacientes com múltiplas comorbidades. Mais de um mecanismo pode coexistir e o gradiente, sozinho, não resolve essa sobreposição.
2) Revisar timing de coleta quando o resultado “não encaixa”
Se o quadro clínico aponta para um caminho e o GASA aponta para outro, o primeiro passo é conferir se albumina sérica e albumina do líquido foram colhidas no mesmo período e em condição clínica comparável.
Em internação, variações de volume, reposição e descompensações podem alterar a albumina e distorcer o gradiente. Antes de “forçar” uma explicação, vale checar esse básico.
3) Não esquecer celularidade
Celularidade faz parte da análise essencial do líquido. Ela muda a conduta quando há suspeita de infecção e evita um raciocínio excessivamente confortável diante de um paciente que pode estar descompensando.
Mesmo com GASA sugerindo eixo portal, infecção pode coexistir e exigir resposta imediata.
Conclusão
O GASA é uma ferramenta simples que economiza tempo quando usada do jeito certo. Ele não fecha etiologia, mas organiza o raciocínio ao separar ascite por hipertensão portal de causas não portais e dá mais consistência aos próximos passos quando lido junto com proteína total, celularidade e contexto clínico.
Para sustentar essa tomada de decisão com agilidade, o Afya Whitebook funciona como apoio de consulta ao longo do fluxo. Ele ajuda a confirmar ponto de corte, revisar os diferenciais mais prováveis em cada faixa do GASA e checar quais exames do líquido ascítico fazem sentido pedir conforme o cenário, sem depender só de memória no dia a dia.
No fim, o objetivo é simples: usar o GASA para escolher o eixo certo e transformar o resultado da paracentese em um plano claro, rastreável e clinicamente útil.