Febre e dor seguem entre as queixas mais frequentes no atendimento pediátrico, tanto em pronto atendimento quanto em consultório.
Na prática, isso faz com que paracetamol, ibuprofeno e dipirona estejam entre os medicamentos mais prescritos na infância.
Mesmo sendo fármacos familiares à rotina do pediatra, o uso seguro depende de um ponto básico que nunca deve ser negligenciado: respeitar a dose por kg, o intervalo entre as administrações e o limite máximo diário. O manejo inadequado da dor e da febre pode trazer prejuízos clínicos e, no caso da prescrição, aumentar o risco de eventos adversos e toxicidade evitável.
Além disso, a diretriz da Sociedade Brasileira de Pediatria reforça que a dor pediátrica deve ser avaliada e tratada de forma sistemática, com abordagem multimodal e escolha racional dos analgésicos conforme faixa etária, intensidade dos sintomas e perfil de segurança.
O que revisar antes de prescrever
Para o médico em início de carreira, alguns cuidados ajudam a evitar erros comuns:
- calcular a dose sempre pelo peso atual
- checar a concentração da apresentação prescrita
- confirmar a idade mínima para uso de cada fármaco
- orientar com clareza o intervalo entre as doses
- somar a dose total nas últimas 24 horas antes de recomendar “se necessário”
Esse último ponto merece atenção especial. Em pediatria, parte importante dos erros ocorre não pela escolha do medicamento, mas pelo excesso involuntário de dose diária, especialmente quando há mais de um cuidador administrando a medicação ou quando diferentes apresentações são usadas em casa
Paracetamol:
Dose máxima via oral:
Neonatal:
- Idade gestacional < 32 semanas: 40 mg/kg/dia;
- Idade gestacional entre 32-36 semanas: 50 mg/kg/dia;
- Idade gestacional > 36 semanas: 60 mg/kg/dia.
- < 2 anos: 60 mg/kg/dia;
- ≥ 2 anos:
- < 50 kg:75 mg/kg/dia ou 3750 mg/dia;
- ≥ 50 kg: 75 mg/kg/dia ou 4.000 mg/dia.
Ibuprofeno
Dose máxima via oral: 40 mg/kg/dia ou 2.400 mg/dia, o que for menor;
Dipirona (metamizol)
Dose máxima via oral: 60 mg/kg/dia ou 4.000 mg/dia, o que for menor;
Como transformar isso em orientação prática
Na rotina, vale deixar uma regra simples:
dose certa não é só mg/kg por tomada — é mg/kg por dia.
Essa é uma mensagem especialmente importante para o médico jovem, que muitas vezes aprende rapidamente a calcular a dose unitária, mas nem sempre confere o volume total administrado em 24 horas. Em casos de febre persistente, dor recorrente ou retorno precoce ao serviço, essa revisão é indispensável.
Pontos de atenção na consulta
Ao prescrever antitérmicos para crianças, vale revisar:
- se a febre é realmente o alvo do tratamento ou apenas um marcador clínico
- se há dor associada e qual sua intensidade
- se a criança tem comorbidades, desidratação, doença renal, hepatopatia ou história de reação medicamentosa
- se os responsáveis entenderam a diferença entre dose, intervalo e limite máximo diário
Fechamento
Paracetamol, ibuprofeno e dipirona fazem parte da prática pediátrica diária, mas o uso rotineiro não elimina a necessidade de atenção aos detalhes. Em pediatria, segurança terapêutica começa no cálculo correto, passa pelo entendimento da formulação e termina em uma orientação clara para a família.
Para o médico jovem, revisar esses limites é uma conduta simples que reduz erro de prescrição, melhora a segurança do paciente e fortalece uma prática mais consistente desde o início da carreira.
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